Fala-se muito em ética na política. Para mim, isso parece uma maldição recorrente. Quem se lembra do discurso que justificava o golpe militar de 64? Combate à corrupção. Em nome dele se perseguiu os inimigos políticos. Quem se lembra do discurso do PT nos anos 80 e 90? Apelou para o recurso fácil do moralismo. Em nome dele armaram-se plebiscitos entre a turma do “bem” contra a turma do “mal”, empobrecendo a redemocratização do País.
E todos se lembram da última campanha presidencial, é claro, porque se passaram apenas alguns meses. Foi dominada novamente pelo maniqueísmo, neste caso armado por Lula num plebiscito bizantino engolido placidamente pela oposição, que se houve pobremente democrática e muito mais oportunista e golpista do que seria minimamente desejável, dando asas ao populismo autoritário do ex-presidente.
Agora pipocam cartas de princípios de saudáveis movimentos pela ética na política. Saudáveis enquanto não crescem e enquanto não tentam passar do discurso para a prática. Porque logo chegará o momento de cerrar fileiras em torno das próximas eleições e o dilema dos que pregam a ética chegará: quem poderá fazer parte do lado dos éticos? E quem será atacado por pertencer ao lado não ético? Haverá um medidor de ética? Servirá apenas a ficha policial dos postulantes? Ou se repetirão as patrulhas ideológicas? Corrijo. No caso, serão patrulhas menos que ideológicas, serão patrulhas morais.
Penso que essa mobilização cíclica contra a corrupção esconde o raquitismo da cultura política nacional, cujos sintomas podem ser simplificados assim: os ricos só esperam que nada ameace os seus privilégios, entre os quais se inclui contribuir muito pouco para a renda do Estado, os pobres só esperam ter acesso ao mínimo para sobreviver e estão pouco se lixando se os governos são mais ou menos éticos e a classe média, essa sim, quer mudanças, porque a classe média sente-se eternamente roubada e impedida de enriquecer, mas por causa do raquitismo político só consegue mobilizar-se para o combate à corrupção.
Por isso essa classe média predominantemente moralista é a mesma que apoiou o golpe militar, é a mesma que engrossou a oposição contra a ditadura militar quando a economia entrou em pane, é a mesma que encorpou e apoiou o PT quando ele era paladino da moralidade e é a mesma que demonizou Dilma por seu passado na guerrilha e supostos desvios em face da moral cristã.
A ética na política é uma bandeira cômoda, mas é muito pesada, porque supõe o momento crucial de atirar a primeira pedra. E a pedra pode cair no pé.
Nota: misturei as noções de ética e moral porque é assim que elas aparecem na realidade social: indevidamente misturadas. Voltaremos depois ao tema, para separá-las. Ou não.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Se você é um militante de alguma facção autocrática de direita ou de esquerda, esqueça esse blog. Se você tem mais dúvidas do que certezas, seja bem-vindo.