sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Se eu fosse candidato a Governador de Mato Grosso do Sul

Parte I
Primeiro, as primeiras coisas. Ser governador de Mato Grosso do Sul é diferente de ser governador da maioria dos estados brasileiros. Só é ligeiramente parecido com ser governador de Mato Grosso, mas Goiás já é outro mundo, Tocantins está do outro lado da nossa lógica e mesmo com o Mato Grosso temos nossas longitudes imaginárias mais ao Leste. Mato Grosso do Sul é um estado que ficou no meio do resto de todos os caminhos, como rota de passagem para o Sul, o Sudeste e o Norte do Brasil, o Paraguai, a Bolívia e o mítico Pacífico, que fica depois de uma cordilheira escondida nas nuvens. Trata-se de um lugar esgarçado em suas preferências de pertencimento: ora queremos ser do Sudeste, ora do Sul, ora do Norte, ora sonhamos em voltar a ser Paraguai, ora escorregamos para o lúdico pantanal e ora subimos rumo ao Planalto Central, elevando nossos planos. O resultado é que somos fragmentos de muitos sonhos, nenhum deles aparatado a nos conduzir para a unidade em torno de uma visão de futuro.
Sonhar em ser governador de Mato Grosso do Sul é um direito de cada cidadão domiciliado nesta terra, e claro, um direito constitucional, desde que seja filiado a um partido. Mas é preciso saber também que quase tudo o que importa na nossa Constituição ainda pertence ao território da Utopia, a começar pela ideia de que somos uma República, na qual todos têm o mesmo direito, independentemente da extração social ou da associação a qualquer coisa, inclusive partidos.
Já pela primeira ressalva, portanto, meu sonho é fictício, não se trata de um sonho sonhável. Isso decorre de várias descondições, além das já citadas, e conseguintes:
a)     fragmentação do território, da cultura e da economia em partes muito desarticuladas em termos de projeto político;
b)    cultura política mais atrasada comparativamente ao espelho do Sul e Sudeste onde Mato Grosso do Sul gosta de mirar-se;
c)     menoridade federativa, porque Mato Grosso do Sul ainda não obteve emancipação desde que foi outorgado e imposto como unidade federada para atender ao desejo de sua elite rala e desunida, orientada por disputas familiares. Continua assim a pensar-se como dependente de mesadas federais e elege seus heróis em termos do volume de transferências federais que cada político de “bom trânsito” possa “trazer”;
d)    predominância de uma cidadania passiva e pouco mobilizada para a defesa do interesse público e coletivo, ou seja, um paraíso clientelista.
Quem poderia, portanto, candidatar-se a qualquer cargo público em Mato Grosso do Sul sem muito dinheiro para atender a uma clientela suficientemente vasta e que espera o período eleitoral como quem espera a colheita da plantação de uma rede de relações pessoais com os futuros eleitos? E que cidadão poderia sonhar, no rumo da insensatez contrária, em ser governador dessa gente propondo-lhe apenas ideias sobre como conduzir a gestão do Estado? Ora, se a eleição é um empreendimento pessoal para o eleitor (substantivada na reflexão o que eu ganho com isso?), o mandato também será a mesma coisa para o governante. Equação financeira de investimento e retorno.
Mas... e se daqui a cinquenta anos as coisas forem muito diferentes, imaginando-se que o ritmo de mudanças permaneça o mesmo e nada parecido com o fim do mundo aconteça? Ah, assim dá para sonhar! E já que se trata de um sonho, levemos então as condições de hoje para esse futuro imaginário, igualmente como se Mato Grosso do Sul fosse o Capitão América, congelado com toda sua cultura, sua economia e seu povo, acordando apenas cinquenta anos no futuro. Ou seja, em vez de evoluir aos poucos, tudo precisaria ser assimilado em três meses, o período dessa mesma hipotética campanha eleitoral de hoje. Aliás, essa campanha de hoje está acontecendo quando? Esse tempo em que vivemos aqui é antes ou depois da Primavera Árabe? E esta, por sua vez, aconteceu antes ou depois da Revolução Francesa? Bom. Deixemos de lado essa questão da inexatidão dos tempos.
Nesse futuro, um cara como eu certamente poderia ser candidato e poderia ser levado a sério, mesmo que não pertencesse a nenhum partido, porque já então qualquer cidadão teria as mesmas condições de falar aos seus concidadãos sem o aval de um partido político. Isso ocorreu no futuro porque a revolução científica e tecnológica facilitou muito a comunicação e permitiu que o direito de ser votado e o de votar sobre todas as questões estratégicas para o País pudesse ser estendido para qualquer cidadão em qualquer tempo, tornando nossa Constituição um pouco mais democrática e republicana, com a instituição embrionária de uma democracia direta, já que a democracia direta em sua plenitude implica na desnecessidade do Estado. Todos os eleitos poderiam dedicar-se apenas a funções sacerdotais.
Assim confiante de que poderia ser ouvido e eleito apenas dizendo publicamente como pretenderia governar, já que também haverá no futuro uma magnífica valorização de qualquer declaração considerada sensata emitida por qualquer ser humano ou qualquer ser senciente - i.é., capaz de sentir e demonstrar prazer, sofrimento ou felicidade -, o que acaba de ser evidenciado pela sabedoria da atuação da bancada parlamentar uníssona dos golfinhos (tudo o que eles falam enquanto indivíduos torna-se uma sinfonia, cujo resultado é uma consciência coletiva perfeitamente alinhada com o Universo – não há debates entre eles, apenas música) minha plataforma de campanha é muito simples, até para poupar o tempo majoritariamente dedicado ao silêncio e à meditação pela maioria das personas (ou seja, pessoas humanas ou não humanas possuidoras de cidadania). Sim, porque a linguagem e a gramática de hoje, separando palavras masculinas e femininas, seres humanos e não humanos não existirá mais. Mas deixemos também de lado essas coisas que poderiam parecer muito estranhas para as cabeças congeladas dos sul-mato-grossenses e vamos tratá-los como se nada tivesse acontecido, como se o mundo todo ainda estivesse no mesmo tempo que eles e os seus problemas atuais, seja lá o que isso signifique.
Voltando a esta campanha de 2014, portanto, e assim considerando a mente recém-descongelada dos sul-mato-grossenses, minha mensagem para eles, com a qual me habilito para postular o cargo de governador foi apenas esta declaração única: Juro que, se for eleito, eu vou cumprir serena e diariamente o juramento que todos os servidores sempre fazem, de cumprir a Constituição e as Leis.
Soou estranho, claro. Por isso (note aqui que já voltamos para um hipotético agora, com a nossa população numa redoma temporal de aclimatação) levou quase um mês para que as pessoas entendessem que tudo o que se diz numa campanha é para valer, que é muito mais sério do que qualquer declaração privada e que, tudo o que é proferido diante de uma assembleia presencial ou virtual de cidadãos pode ser arguido em um tribunal político ou judicial, como qualquer declaração pública que mereça fé, inclusive para a finalidade de cassar o mandato daquele que fez promessas vãs, irrealizáveis; fez declarações absurdas, insensatas; ou promoveu qualquer atividade tendente a ludibriar os eleitores, disseminando mentiras de qualquer espécie ou quilate.
Pois bem. Como o tempo gratuito reservado em todas as mídias para a minha mensagem às personas esteja sobrando e alguma perplexidade ainda subsista diante da proposta tão simples e clara de cumprir a Constituição e as Leis, algo que é, aliás, inevitável num Estado que possa ser chamado de Estado Democrático de Direito (ou seja, governado pelas leis e não pelos homens, coisa pela qual a humanidade lutou em todas as revoluções), posso dar-me ao luxo de explicar como funcionaria então esse governo no qual eu seria o Primeiro Servidor, título mais apropriado do que Governador, já que todos os cargos eletivos ou efetivos, temporários ou vitalícios, são reservados para pessoas de confiança e de ficha imaculada, que juram cumprir as leis e a Constituição e que prometem bem servir. Ou seja, são servidores, apenas. No topo dessa hierarquia e somente na medida em que tal hierarquia seja necessária e razoável, coloca-se um Primeiro Servidor que se troca a cada mandato.
E aqui já me adiantei na explicação do que significa cumprir a Constituição e as Leis. A primeira consequência disso será desistir de qualquer possibilidade de reeleição. E é claro, isso nem é mais objeto de norma constitucional ou mesmo ordinária, porque são muito poucas as pessoas que hoje (Ui! Preciso ir com calma!) aceitam servir ao público por mais do que dois anos sem acrescentar ao patrimônio nada além do que um diploma de honra ao mérito, muito menos num cargo com tal nível de responsabilidade. Afinal, ser o Primeiro Servidor implica conduzir a bom termo uma organização maior, mais diversa e complexa do que qualquer empresa privada do mundo. Nenhuma grande multinacional, com efeito, se mete com tantos negócios ao mesmo tempo e submete tudo isso ao juízo de um só gestor.
Sim, acho que já me adiantei ainda mais. É claro que basta um mandato. E não só isso. Tal mandato não tem remuneração, apenas as verbas indenizatórias para cobrir despesas com o suporte vital e o transporte da pessoa. Depois de dois anos, que assuma a minha candidata a vice. E (ô pressa!) quase ia me esquecendo, as chapas agora têm sempre uma pessoa do gênero yin e uma pessoa do gênero yang que se revezarão no cargo durante o mandato. Obviamente, tal característica é escolha das pessoas e nada tem a ver com a sua constituição física natural. Como Yin e Yang são aspectos intrinsecamente permutáveis, as pessoas podem mudar a sua declaração de gênero a qualquer tempo.
Acho oportuno, então, resumir o que temos até aqui como propostas do meu mandato de Primeiro Servidor, para não aloprar os sul-mato-grossenses meus irmãos, encimadas por uma única diretriz: cumprir serenamente as leis. (Esse serenamente se contrapõe ao rigorosamente que era tão utilizado quando ainda vigorava a cultura da violência).
Então, cumprir serenamente as leis e, por consequência disso:
a)     Rejeitar a reeleição;
b)    Dividir o mandato com uma pessoa de índole complementar à minha, entregando-o para ela depois de dois anos;
c)     Rejeitar qualquer remuneração para o cargo, devido à sua importância. Aceitar apenas indenizações de despesas pessoais comprovadas com alimentação, saúde, repouso e transporte;
d)    Contratar um gestor profissional para despachar com os outros profissionais contratados temporariamente para compor o Núcleo Estratégico Tecnopolítico do governo, enquanto me dedicarei às reuniões com o Núcleo Estratégico Político, que inclui os parlamentares e quaisquer outros cidadãos interessados, inclusive das cortes de contas e da Justiça, além do controle interno, a fim de passar em revista todos os resultados de todos os atos praticados pelos gestores no dia-a-dia da gestão e ao final referendá-los ou não, com base na avaliação de sua legalidade, moralidade, impessoalidade, publicidade e eficiência. Claro! Resultados só importam se a produção deles atende aos princípios constitucionais que regem a Administração Pública.
Isso deveria bastar como explicação, mas temos um problema, as memórias dos sul-mato-grossenses em relação aos seus falsos problemas da época em que ainda não tinham sido congelados, a saber:
a)     A agenda das Reformas, a começar pela Reforma Política, Fiscal e Tributária;
b)    O Pacto Federativo e a questão da tributação em Mato Grosso do Sul;
c)     A questão do modelo e da estratégia de desenvolvimento do Estado;
d)    A efetividade dos serviços públicos de saúde, segurança, educação, etc, ou seja, de todos os serviços voltados para a manutenção do bem-estar e da paz das pessoas humanas e não humanas.
Terei de explicar porque se tratam de problemas falsos. E isso resultará em mais outro texto do tamanho deste. Tarefa para outro dia, porque o lazer é sagrado entre nós.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Reforma Política: faça você mesmo

A Reforma Política entrou nos sonhos de consumo de dez entre dez pessoas preocupadas com a deterioração da política e da gestão do País: uma leva à outra. Como normalmente se discute pouco qual seria o seu conteúdo, já porque nesse particular a unanimidade se esvai, quero tentar colar esse assunto na sequência da discussão iniciada aqui sobre política profissional versus política para amadores.
Só para saber do que estamos falando, as principais propostas para a Mãe de Todas as Reformas, como já vi ser chamada a Reforma Política, normalmente incluem:
1 – fidelidade partidária, medida adotada para evitar o troca-troca de partidos e o descolamento entre mandatos e programas aprovados pelos eleitores. O mandato é do Partido e não do eleito. A troca de partido, portanto, implica a perda do mandato. A Justiça Eleitoral tenta emplacar essa disciplina com base na legislação vigente, mas há controvérsias e leniências;
2 – financiamento público de campanhas, que visa pelo menos diminuir o peso do poder econômico no resultado das eleições. Em tese, alguém sem financiamento privado poderia concorrer em relativa igualdade de condições com os favoritos dos investidores no negócio da política. Além da sangria no Tesouro, mais dinheiro para todos os candidatos somente torna mais dramática a demanda por financiamentos arredios à lei eleitoral. Se a fiscalização e punição não são suficientes nem eficientes hoje, não vejo como o aumento da quantidade de dinheiro vai melhorar a situação;
3 – voto distrital, que visa aumentar a vinculação dos candidatos ao Parlamento com suas bases, criando distritos eleitorais. Em teoria, parece bom que o candidato a Deputado deva buscar sua eleição numa base territorial restrita, pelo que ficaria obrigado a prestar contas aos seus eleitores. Na prática, já acontece que a maioria dos eleitos tem sua base e mantém com ela uma relação constante. O voto distrital, portanto, não resolverá o problema do clientelismo;
Além dessas três medidas principais, a Reforma Política ainda poderia trazer lenitivo para várias queixas recorrentes: a reunificação das eleições, porque a eleição de dois em dois anos atrapalha o andamento dos governos; o fim da reeleição e o aumento do período dos mandatos para cinco anos; a diminuição do número de partidos, aumentando as exigências para o registro partidário; a cisão da Justiça Eleitoral, que hoje concentra poderes de Executivo, Legislativo e Judiciário em matéria eleitoral... e poder demais é tóxico para as instituições; o fim dos foros privilegiados; redução de privilégios e mordomias, limitação dos orçamentos das casas legislativas, etc. e mais o que se possa imaginar até a náusea.
Em que pese o mérito de qualquer conjunto de medidas propostas, há dois problemas. O primeiro, que essas medidas deveriam ser discutidas e votadas pelos atuais legisladores e governantes. E não há qualquer indicação de que eles estejam muito interessados em mudar as regras de um jogo no qual estão goleando a patuleia. O segundo problema é que, mesmo que uma boa dose de mudanças seja empurrada goela abaixo do Congresso por pressão da sociedade (?) ou por artimanha e força de uma grande liderança (?), isso terá o mesmo efeito de baixar a febre de um corpo infectado.
Retomando o que já discutimos alhures: a raiz profunda do problema está na cultura política dos cidadãos, que ainda não se percebem como tal, ou seja, como detentores do poder do Estado e responsáveis em última instância pelo que acontece na República. Sem esse senso de responsabilidade pelo que os mandatários fazem com o mandato que nós entregamos a eles não há República. Pensando o caso pelo seu reverso, se houvesse um crescimento razoável da responsabilidade pelo que é público e um pouco de interesse pela gestão do País fora do período do circo eleitoral, então não precisaríamos de Reforma Política alguma, porque o voto dos eleitores promoveria por si só a limpeza do sistema político.
A conclusão é uma só: a Reforma Política, assim como qualquer outra reforma do Estado não é assunto dos governos e nem do Congresso, é assunto da sociedade. Quem dá o mandato deve ser capaz de fiscalizá-lo e de tirá-lo quando o mandatário descumprir ou desviar-se dele. É assim quando uma pessoa outorga uma procuração para alguém dispor de um bem seu, e com mais razão também deveria ser assim quando outorgamos para alguém um mandato para dispor do que pertence a todos nós.
Produzir normas não adianta grande coisa, se nunca nos damos ao trabalho de cumprir as normas existentes. Mas não sou pessimista, longe disso. Acho que a coisa é bem mais simples: bastaria, por enquanto, que 30% dos eleitores começasse a não votar duas vezes na mesma pessoa para o mesmo cargo, ainda que o desempenho do eleito tivesse sido excelente. Trata-se de não reeleger por uma questão de princípio.
Agora pense nas implicações disso: reeleição zero! Eu já comecei: não voto mais em ninguém duas vezes para o mesmo cargo!

sábado, 22 de janeiro de 2011

A nova aristocracia: os profissionais da política

Seis séculos antes de Cristo os atenienses inventaram a democracia e a praticaram depois por quase duzentos anos. Os cidadãos reuniam-se numa praça e deliberavam com amplos poderes sobre todas as questões importantes do Estado. Não havia representantes e nem separação entre governo e cidadãos, já que o poder de governar era da Assembléia. Isso era possível em Atenas porque o número de cidadãos era reduzido: as mulheres, os escravos e os estrangeiros não tinham cidadania. No apogeu da democracia ateniense, entre 460 a.C e 430 a.C, cerca um décimo da população podia participar da Assembléia. As estimativas para a população total de Atenas nesse período variam, conforme a fonte, entre 230 mil até 400 mil pessoas. Mesmo para a hipótese mais conservadora para o tamanho dessa população, entretanto, isso resultava numa enorme assembléia.
Não importa muito aqui conhecer os números exatos da população de Atenas. Basta comparar: temos mais de 180 milhões de habitantes no Brasil e a soma de todas as pessoas que possuem poder suficiente para decidir os rumos do governo, considerando os membros dos quatro poderes de todos os entes federativos (Executivo, Legislativo e seus Tribunais de Contas, Judiciário e Ministérios Público da União, dos Estados e dos Municípios) e mais os tubarões que podem mandar mais que todos os outros juntos, aposto um café, não chegará a meio por cento da população. Isso pode ser bom ou ruim, já que não raro temos vontade de reduzir o número de vereadores e deputados, mas dá o que pensar sobre o processo de concentração do poder e de separação entre quem realmente governa e quem paga a conta.
Isso aconteceu porque as grandes revoluções do Séc XVIII sacramentaram o princípio da igualdade (liberdade, igualdade, etc) como pilar dos sistemas e formas de governo, o que resultou na reinvenção da democracia, a fim de torná-la acessível a grandes populações de iguais: a eleição de representantes que pudessem expressar a vontade dos seus eleitores. Como reunir todo mundo numa praça para deliberar? É impraticável. A solução natural é investir de poderes a poucos para deliberar em nome de muitos.
Problema: criamos com isso uma nova aristocracia. Essa nova aristocracia não lega os seus títulos como propriedade da família, mas especializou-se em conservar o poder profissionalizando a política. Disso resulta que os representantes eleitos representam cada vez menos aos seus eleitores, os quais, majoritariamente, afastam-se da política como arte de governar o interesse público, torcem o nariz para a democracia e vêem nas eleições apenas a oportunidade momentânea de ganho pessoal. As eleições consolidam-se, portanto, como negócio de alto risco, dominada pelos mais ricos e empreendedores.
Ora, se o cidadão investiu milhões para ser eleito deputado, senador ou prefeito, porque deveria ter fidelidade à vontade dos eleitores? Afinal, a eleição só é tão cara porque o povo está disposto a “vender” o seu voto, seja em troca de dinheiro, de favores ou apenas de circo, matéria abundante nas campanhas. Sendo assim, o eleito terá fidelidade aos que financiaram sua campanha. Quanto ao povo, precisa apenas ser enganado, com mais circo e com a fábrica de boas notícias e de mais passividade.
A política como negócio profissional é uma degeneração do sistema que adotamos. Quais as soluções que os amadores podem propor? Disso falarei depois, porque hoje é sábado.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O peso da bandeira da ética

Fala-se muito em ética na política. Para mim, isso parece uma maldição recorrente. Quem se lembra do discurso que justificava o golpe militar de 64? Combate à corrupção. Em nome dele se perseguiu os inimigos políticos. Quem se lembra do discurso do PT nos anos 80 e 90? Apelou para o recurso fácil do moralismo. Em nome dele armaram-se plebiscitos entre a turma do “bem” contra a turma do “mal”, empobrecendo a redemocratização do País.
E todos se lembram da última campanha presidencial, é claro, porque se passaram apenas alguns meses. Foi dominada novamente pelo maniqueísmo, neste caso armado por Lula num plebiscito bizantino engolido placidamente pela oposição, que se houve pobremente democrática e muito mais oportunista e golpista do que seria minimamente desejável, dando asas ao populismo autoritário do ex-presidente.
Agora pipocam cartas de princípios de saudáveis movimentos pela ética na política. Saudáveis enquanto não crescem e enquanto não tentam passar do discurso para a prática. Porque logo chegará o momento de cerrar fileiras em torno das próximas eleições e o dilema dos que pregam a ética chegará: quem poderá fazer parte do lado dos éticos? E quem será atacado por pertencer ao lado não ético? Haverá um medidor de ética? Servirá apenas a ficha policial dos postulantes? Ou se repetirão as patrulhas ideológicas? Corrijo. No caso, serão patrulhas menos que ideológicas, serão patrulhas morais.
Penso que essa mobilização cíclica contra a corrupção esconde o raquitismo da cultura política nacional, cujos sintomas podem ser simplificados assim: os ricos só esperam que nada ameace os seus privilégios, entre os quais se inclui contribuir muito pouco para a renda do Estado, os pobres só esperam ter acesso ao mínimo para sobreviver e estão pouco se lixando se os governos são mais ou menos éticos e a classe média, essa sim, quer mudanças, porque a classe média sente-se eternamente roubada e impedida de enriquecer, mas por causa do raquitismo político só consegue mobilizar-se para o combate à corrupção.
Por isso essa classe média predominantemente moralista é a mesma que apoiou o golpe militar, é a mesma que engrossou a oposição contra a ditadura militar quando a economia entrou em pane, é a mesma que encorpou e apoiou o PT quando ele era paladino da moralidade e é a mesma que demonizou Dilma por seu passado na guerrilha e supostos desvios em face da moral cristã.
A ética na política é uma bandeira cômoda, mas é muito pesada, porque supõe o momento crucial de atirar a primeira pedra. E a pedra pode cair no pé.
Nota: misturei as noções de ética e moral porque é assim que elas aparecem na realidade social: indevidamente misturadas. Voltaremos depois ao tema, para separá-las. Ou não.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O preço da democracia brasileira

Há outra tragédia subjacente às tragédias provocadas pelas chuvas de verão: o preço que pagamos pela fragilidade da nossa democracia.
Essa fragilidade tem raízes na cultura política individualista e messiânica: cada um espera o seu salvador. Para dar o seu voto, a maioria pergunta antes o que o candidato, a eleição, o eleito, o governante ou o governo vão trazer de vantagem imediata para si, para a sua família, para a sua empresa, para a sua corporação.
Como resultado dessa cultura patrimonialista e pré-republicana, na qual o Rei pode dispor livremente do Tesouro, desde que seja para favorecer o seu cliente, prioriza-se o é nosso (interesse particular) e não o que é de todos (res publica, interesse público).
Herança genética das monarquias ibéricas, isso nos leva à doença crônica e degenerativa da nossa democracia: o clientelismo, que torna natural a troca de favores por votos, o que, por sua vez, faz das eleições um negócio como outro qualquer, no qual se investe dinheiro pesado, o que desemboca, por fim, em governos que precisam realimentar o ciclo do financiamento das campanhas cada vez mais caras, a fim de manter o poder, objetivo final de todo o empreendimento político. E como todo empreendimento, a política se torna cada vez mais profissional, virtual e cartelizada.
Ora, precisamente neste ponto se encontram a tragédia sazonal das chuvas com a tragédia permanente da política: governos mobilizados para fazer caixa para a eterna “campanha do ano que vem” instituem de bom grado o emergencialismo, um substituto falso para políticas públicas planejadas, mas que por isso mesmo só dariam resultados em longo prazo, para além dos horizontes do mandato.
A cada dois anos há uma eleição e é preciso juntar num ano o capital político e financeiro que se gastará no ano seguinte para dar sequência ao consórcio de poder no qual se juntam os ganhadores e os perdedores. Os consórcios de partidos e seus candidatos sustentam-se na predileção da maioria dos eleitores por obras novas, novos nomes para velhos programas, promessas e agrados imediatos, propaganda das qualidades pessoais dos líderes de plantão e demonização dos seus adversários.
Importante para o enredo dessa comédia, sobretudo, é a cantilena obscura de que serão feitas as “reformas-da- Constituição-Federal-de-que-o-País-precisa-para-ser-grande-e-competitivo-no-Século-XXI”. Só nos esquecemos de que os países mais avançados têm constituições antigas e tradição de respeitar suas leis.
Nesse caldo indigesto que mistura politicagem mais que tolerada pelo público com improviso total da gestão, ao descabelo de todas as normas, a emergência e o clamor público são o gatilho ideal para as contratações sem os cuidados legais, superfaturamentos, abandono de investimentos e manutenção excessivamente onerosa de obras e serviços.
Um exemplo e uma pergunta: quanto custa o asfalto mal feito, ao longo de vinte anos, em comparação com outro feito para durar vinte anos? E a pergunta contrária: mas como exigir de um governo que “faça mais com menos” se a relação custo-benefício de um investimento só se tornará positiva depois de muitos anos de operação a baixo custo?
Resta então o circo, o pão, a tragédia, a novela da política, o improviso da gestão, o espetáculo da solidariedade e da passividade brasileiras. Os mesmos grupos revezam-se no poder para fazer a mesma coisa que antes criticavam, como o Yin e Yang: um se transforma no outro conforme o lado escuro da montanha de manhã torna-se claro à tarde.
Assistimos à vitória da emergência sobre o planejamento, do vale-tudo sobre a legalidade, da apatia submissa sobre a cidadania consciente e crítica. Dá para entender porque há projetos de poder para vinte anos, mas não há projetos de desenvolvimento para vinte anos.
A conclusão: governos apenas fazem o que é preciso para se manter no poder. Já as condições para que se mantenham no poder é dada pelas escolhas dos eleitores.
Enquanto a maioria de nós preferirmos os favores pessoais e o culto à personalidade dos líderes, continuaremos pagando o preço disso e perpetuando o que já dizia Lima Barreto há um século: no Brasil não temos cidadãos, temos espectadores.